quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Hotel Califórnia

Os acordes do violão soaram delicadamente.Com os vidros totalmente fechados em seu carro novo, um carro do ano, ele começava a ouvir a música Hotel Califórnia, um clássico do The Eagles.
A música lembrava ela, sempre que a ouvia era impossível não pensar nela. A versão era um acústico, muito bem elaborado. Gostoso de ouvir. E os dois haviam escolhido juntos essa musica como tema de seu amor.
Depois de algumas batucadas e muitas dedilhadas do violão, seguidas por aplausos do público que assistia, o vocalista pronunciou ternamente a primeira estrofe.

On a dark desert highway, cool wind in my hair
Warm smell of colitas, rising up through the air
Up ahead in the distance, I saw a shimmering light
My head grew heavy and my sight grew dim
I had to stop for the night


A voz era doce e melodiosa. Não era por acaso que a música era um sucesso no mundo. Sucesso com todas as idades e gerações.
Então ele olhou para fora do carro através do insulfilm. Estava parado em frente a escola que ela estudava. Era incrível como o tempo passava rápido.
Havia dos anos que ela havia lhe dito que acabou.
Ainda somos muito novos - ela disse - Vamos dar um tempo e descobrir nossas prioridades.
Besteira! Desde quando o amor entre duas pessoas tem idade ou tempo?
Não suportava a idéia de que a garota que nascera para amar não o queria mais.
Não suportava a idéia de que a garota que nascera para amar não o queria mais.Ela estava terminando a 3ª Série do Ensino Fundamental, dali a alguns dias faria 19 anos. Continuava linda como a dois anos atrás. Continuava linda como no dia que a conheceu.
A música se aproximava do refrão.
Era noite e muitas pessoas já se aglomeravam diante do portão verde-oliva da escola municipal onde ambos estudaram, e onde somente ela estudava agora.
Muitos garotos com carros modificados e som alto estacionavam perto da escola. Adolescentes sedentos por uma aventura. caras querendo "pegar" as meninas loucas por seus carros.
O som era sempre o mesmo, com muita batida, músicas com uma única função: Fazer tremer.
Tais pessoas se achavam o máximo por isso. Se sentiam os donos da vez.
Ele também estava com o som alto. Mas naquele carro extremamente elegante que passara cinco anos de sua vida guardando dinheiro para comprar, só ele ouvia. Os vidros vedados não deixavam escapar uma nota sequer de Hotel Califórnia.
Ela apontou no portão. Tinha os olhos verdes mais penetrantes que alguém podia ter. Vinha seguida por uma porção de amigos. Sempre fora muito comunicativa e alegre.
Pôde reparar que eram todos amigos novos. Nenhum ele conhecia. Ninguém que ela andava ou para quem sorria sabia de seu passado, sabia dos dois.

Welcome to the Hotel California


Ele abriu os vidros elétricos, das duas portas.

Such a lovely place
Such a lovely face
Plenty of room at the Hotel California
Any time of year, you can find it here


O Refrão saiu em alto e bom som, escapando para a liberdade da noite fresca e pousando nos ouvidos dela.
As batidas futeis dos carros próximos ainda ganhavam em altura e poucas pessoas repararam naqueles acordes de violão. Mas ela fixara o olhar nele.
Oh, como a conhecia. Conhecia como nenhum ser humando jamais a conheceu. Sabia reconhecer até seus sinais vitais. Pôde ver que seus olhos verdes marejavam de lágrimas, mesmo estando a mais de vinte metros de distância de seu corpo.
Sabia que estava cheirosa. Sempre esteve.

Her mind is Tiffany-twisted, she got the Mercedes-Bends
She got a lot of pretty, pretty boys, that she calls friends
How they dance in the courtyard, sweet summer sweat.
Some dance to remember, some dance to forget

So I called up the Captain,
'Please bring me my wine'
He said, 'We haven't had that spirit here since nineteen sixty nine'
And still those voices are calling from far away,
Wake you up in the middle of the night
Just to hear them say...


A música continuava e seus pensamentos viajavam. Lembrou-se dos tempos em que era feliz. Da noite em que escolheram essa música como tema do amor que parecia infinito, indestrutível.
Ela havia colocado para tocar em seu mp3, deu um dos fones para o namorado e ouviram juntos. Estavam olhando para as estrelas, deitados de costas na grama rala de um morro perto da casa de seus avós.
A garota estava de férias na escola e ele fez de tudo para pegar férias no trabalho, junto com ela. Ao conseguir, viajaram para o interior do estados, onde seus avós possuiam um sítio e viveram quinze dias mágicos, acordando e dormindo juntos em todos eles.
Choraram ao final da música e disseram EU TE AMO ao mesmo tempo. Não souberam explicar um ao outro o porque do choro. Então sorriram e prometeram ficarem juntos para sempre.

Mais uma vez o refrão aflorava

Welcome to the Hotel California
Such a lovely place
Such a lovely face
They livin' it up at the Hotel California

Nesta parte, o coro da banda fazia um vocal delicioso.

What a nice surprise, bring your alibis

Sua boca seca mantinha-se fechada. Tinha até medo de abrir a boca, pois não sabia o que dizer a garota.
Ela continuava a fitar demoradamente. Usava uma camiseta de algodão branca, com uma mancha redonda de óleo perto da costela esquerda. A mancha que ele fizera um dia que a levara numa pastelaria da redondeza.
Depois da pastelaria ele a levara pra casa e eles tiveram a primeira noite de amor. Ela era virgem, e ele, apesar de ser quatro anos mais velho, também era.

Mirrors on the ceiling,
The pink champagne on ice
And she said 'We are all just prisoners here, of our own
device'

And in the master's chambers,
They gathered for the feast
The stab it with their steely knives,
But they just can't kill the beast

Seus cabelos pretos e longos esvoaçaram ao vento cálido. Usava calças pois sabia que esfriaria. Segurando os cadernos com os dois braços apertando-os contra os seios robustos e firmes, ela se aproximou do carro dele.
Não para entrar em contato, mas para atravessar a rua. Atravessou na frente do carro e sua cabeça girou para fitar o ex-namorado. Seus olhos estavam marejados, mas os dele não. Sua expressão se mantera firme. Não brava ou expressão de raiva, mas simplesmento firme.
Ela prometera nunca fazer aquilo.
"Eu nunca mais vou olhar pra sua cara!"
Estava descumprindo sua promessa. Sempre fazia isso. Será que tinha esperança de voltar? Ele queria, mas será que ela queria?

Last thing I remember, I was
Running for the door
I had to find the passage back
'Relax,' said the night man,
We are programmed to receive.
You can checkout any time you like,
but you can never leave!


Os ultimos acordes soaram e ele fechos os vidros. De modo que só ele ouviu o a vibração da galera que assistira ao vivo os Eagles.
Ao olhar no retrovisor, viu a imagem da amada se distanciar, notou que ela abaixou a cabeça. Sabia que ela estava chorando, com certeza arrependida.
Suas amigas ficaram sem reação e pararam de andar ao lado dela. Nunca haviam visto a menina alegre e divertida chorar. Era um impacto tão grande pra elas que nem tiveram reação de perguntar o que havia ocorrido. Nesta situação ela caminhou sozinha na visão do retrovisor.
Ele pegou-se Imaginando como seria se também chorasse. Será que ela pararia e o puxaria para um abraço e um beijo apaixonado, terno?
Será que ela pediria perdão e juraria que nunca mais o deixaria?
Essa resposta infelizmente ele jamais poderia ter. Pois não conseguia chorar perto dela.
Por mais dolorido que seu coração estivesse, por mais triste que estivesse não conseguia.
Sua saudade dilacerava por dentro quando não a via. Mas quando seus olhos entravam em contato com os dela, apenas a alegria reinava dentro dele.
Não conseguia ficar triste, pelo contrário, sentia-se radiante toda vez que a olhava.
Por não conseguir ficar mal diante dela, ele nunca mais a teria.
Chegaria em casa e ficaria em sua solidão, entraria novamente em sua depressão, e quem sabe ouviria um pouco de Hotel Califórnia.

0 comentários: