quarta-feira, 15 de abril de 2009

Don't Worry!

Be Happy!

Sempre me deparo com essa música em algum filme americano. É uma música mundialmente famosa, mas parece que os americanos gostam mais ainda.
A filosofia dela é boa. Sabe... estava ouvindo ela e pensando em você! Queria poder estar do seu lado agora. Lembro de quando você tentava me ensinar inglês desde os quatro anos de idade. Até hoje não sei falar direito. Os dois meses que me ensinou não serviram assim pra tanta coisa. Pois é, quem diria que eu sentiria tanta falta de uma pessoa que nem mesmo lembro dos traços do rosto. Pra mim você parece mais um borrão. A única imagem nítida que tenho de sua aparência é aquela na foto que você esqueceu aqui em casa, a única.
Sei que o tempo passou e eu deveria deixar esse lado da minha vida pra trás. Mas é que não entendo certas coisas dessa minha louca vida. Se você gostava tanto de mim, cantava no meu ouvido na hora de dormir, passeava pelos parques da cidade de mãos dadas comigo, por que partiu tão cedo? Por que não terminou de me ensinar inglês e me levou junto para os Estados Unidos?
Será porque a Carmen não gostava muito de mim? Ela não queria cuidar do filho de outra pessoa não é mesmo? Tenho quase certeza que é isso. Bom, pelo menos prefiro pensar nisso do que pensar que você me abandonou porque queria me esquecer; esquecer que teve um filho.
Cara, como me faz falta ter alguem para pedir conselhos. Você nem sabe o quanto dói. Dizem que é assim mesmo não é?! Pai não liga muito. É mais mãe que sofre.
Antes eu tivesse a minha aqui comigo. Você ficou sabendo? Um ano depois da sua partida ela morreu. Teve overdose. Meus tios - moro com eles agora - me contaram que esse era o fim que todos previam. Após a sua partida repentina para ir morar com a tal Carmen aí nos Estados Unidos, ela se drigava todos os dias. Vendeu 80% dos nossos bens para manter o vício; certo dia ela não aguentou levar a geladeira para a "boca". Teve uma overdose logo de manhã.
Se está lendo agora, deve estar pensando que reclamo de barriga cheia, afinal eu tenho meus tios. Mas sabe... eles trabalham muito. Agradeço muito por eles terem cuidado de mim. São como os pais que nunca tive. Mas mesmo assim... sinto falta de algo. Dos conselhos. Sinto falta de alguem me ensinando a fazer a barba. A dirigir. Meus tios são muito pobres. As vezes sinto como se eu fosse a pedra no sapato deles.
Bom, falei demais. Espero que tenha chegado ao menos nessas linhas e não tenha rasgado essa carta já na metade.
Fique tranquilo, não estou esperando sua redenção. Não espero, sinceramente, que bata o arrependimento em você agora, e queira seu meu pai, e recuperar o tempo perdido, e blá, blá, blá. Só quero que saiba que estou bem, tenho saúde. Faço medicina pela USP. Tenho vinte e cinco anos já. É o tempo passa rápido. Vou comprar meu primeiro carro zero na semana que vem. Já faço estágio - bem remunerado até - desde o primeiro semestre da faculdade. Foi muita sorte a minha, afinal todos querem dar estágio ao primeiro colocado em medicina da USP.

Passar bem Papai.

Com carinho e muitas saudades,

Henrique Sales Nogueira




São Paulo, 23 de Julho de 2004.

A/C: Armando Augusto Nogueira - Salt Lake City - Detroit - USA.

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